RSSTwitter

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Fobia de Pobre

Quem não se lembra da delícia que era esperar o domingos à noite para ver o personagem Caco Antibes do extinto programa Sai de baixo gritar aos quatro cantos que tinha “horror a pobre”?! Era uma sátira, e eu particularmente ria horrores, afinal, quem nunca tinha se encaixado em algum (ou vários) dos exemplos citados pelo falido aristocrata? Ficção, mas a verdade é que uma minoria que está no topo da pirâmide financeira sente mesmo a necessidade de ser diferente, especial, usufruir de produtos exclusivos, ir a lugares onde quase ninguém pode, quase um deus, acima dos relés mortais.

Nunca me esqueço de uma matéria que vi na tv há um tempo atrás que ilustra bem isso. Eles foram a uma vinícola que fabricava vinhos exclusivíssimos que custavam cerca de 15 mil dólares a garrafa, somente vendido a seletos compradores, previamente selecionados. Quando o repórter questionou o enólogo responsável sobre qual a diferença de um vinho de 900 dólares  da mesma vinícula para essas verdadeiras joias em forma de líquido, a resposta foi simples e objetiva: “nenhuma, os dois são vinhos de qualidade, a diferença é que temos clientes muito especiais que exigem um vinho diferenciado mas que só eles podem beber.” 

Aí lembrei também do assunto "bem nascidas", da "orkutização" das bolsas Louis Vuitton, de quando uma blogueira falou que ia aposentar sua Chanel pois uma ex-dançarina do Faustão usou uma, de quando um grupo reclamou que "agora todo mundo tem Instagram, não quero mais. Maldita inclusão digital!" (antes só quem tinha o caro iPhone tinha). A verdade é que o que se quer é ser invejado...

Por que estou falando nisso? É que na semana passada li um artigo escrito por uma famosa colunista, em um renomado jornal, que materializa isso de uma forma nada sutil, e sinceramente, não sei o que me choca mais: o pensamento dessa senhoura ou o fato do maior jornal de circulação nacional publicar essa nojeira. Sim, porque não é a primeira vez que a “elegante” Danuza Leão escreve essas asneiras que tratam a pobreza como uma doença contagiosa (lembram desse texto aqui?), mas especialmente nesse texto ela mostra o quão pobre uma pessoa pode ser. Tão pobre que não lhe resta nada além de dinheiro…

 



 
Ser especial
 

Afinal, qual a graça de ter muito dinheiro? Quanto mais coisas se tem, mais se quer ter e os desejos e anseios vão mudando --e aumentando-- a cada dia, só que a coisa não é assim tão simples. Bom mesmo é possuir coisas exclusivas, a que só nós temos acesso; se todo mundo fosse rico, a vida seria um tédio.

Um homem que começa do nada, por exemplo: no início de sua vida, ter um apartamento era uma ambição quase impossível de alcançar; mas, agora, cheio de sucesso, se você falar que está pensando em comprar um com menos de 800 metros quadrados, piscina, sauna e churrasqueira, ele vai olhar para você com o maior desprezo --isso se olhar.

Vai longe o tempo do primeiro fusquinha comprado com o maior sacrifício; agora, se não for um importado, com televisão, bar e computador, não interessa --e só tem graça se for o único a ter o brinquedinho. Somos todos verdadeiras crianças, e só queremos ser únicos, especiais e raros; simples, não?

Queremos todas as brincadeirinhas eletrônicas, que acabaram de ser lançadas, mas qual a graça, se até o vizinho tiver as mesmas? O problema é: como se diferenciar do resto da humanidade, se todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais?

As viagens, por exemplo: já se foi o tempo em que ir a Paris era só para alguns; hoje, ninguém quer ouvir o relato da subida do Nilo, do passeio de balão pelo deserto ou ver as fotos da viagem --e se for o vídeo, pior ainda-- de quem foi às muralhas da China. Ir a Nova York ver os musicais da Broadway já teve sua graça, mas, por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça? Enfrentar 12 horas de avião para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros --não é melhor ficar por aqui mesmo?

Viajar ficou banal e a pergunta é: o que se pode fazer de diferente, original, para deslumbrar os amigos e mostrar que se é um ser raro, com imaginação e criatividade, diferente do resto da humanidade?

Até outro dia causava um certo frisson ter um jatinho para viagens mais longas e um helicóptero para chegar a Petrópolis ou Angra sem passar pelo desconforto dos congestionamentos.

Mas hoje esses pequenos objetos de desejo ficaram tão banais que só podem deslumbrar uma menina modesta que ainda não passou dos 18. A não ser, talvez, que o interior do jatinho seja feito de couro de cobra --talvez.

É claro que ficar rico deve ser muito bom, mas algumas coisas os ricos perdem quando chegam lá. Maracanã nunca mais, Carnaval também não, e ver os fogos do dia 31 na praia de Copacabana, nem pensar. Se todos têm acesso a esses prazeres, eles passam a não ter mais graça.

Seguindo esse raciocínio, subir o Champs Elysées numa linda tarde de primavera, junto a milhares de turistas tendo as mesmas visões de beleza, é de uma banalidade insuportável. Não importa estar no lugar mais bonito do mundo; o que interessa é saber que só poucos, como você, podem desfrutar do mesmo encantamento.

Quando se chega a esse ponto, a vida fica difícil. Ir para o Caribe não dá, porque as praias estão infestadas de turistas --assim como Nova York, Londres e Paris; e como no Nordeste só tem alemães e japoneses, chega-se à conclusão de que o mundo está ficando pequeno.

Para os muito exigentes, passa a existir uma única solução: trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates --sem medo de engordar--, o ar-condicionado ligado, a televisão desligada, e sozinha.

E quer saber? Se o livro for mesmo bom, não tem nada melhor na vida.

Quase nada, digamos.

Danuza Leão

 

Fotos: Reprodução


É piada, né Coringa?

80 comentários: